O transporte rodoviário de cargas chega ao fim de outubro de 2026 pressionado pelo preço do diesel, por uma nova tabela de pisos mínimos, pela fiscalização eletrônica das contratações e pelas incertezas da reforma tributária.
O cenário do transporte rodoviário em outubro de 2026
O combustível voltou a ocupar o centro das discussões do transporte de cargas. No fim de setembro, a Agência Nacional de Transportes Terrestres atualizou os coeficientes utilizados no cálculo dos pisos mínimos do frete rodoviário.
A revisão adotou R$ 7,33 por litro como preço nacional de referência do diesel S10. Esse valor corresponde à média apurada entre os dias 20 e 26 de setembro de 2026.
Já a síntese semanal da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis registrou preço médio nacional de R$ 7,36 por litro na semana encerrada em 4 de outubro.
Os números mostram que o combustível permanece em um patamar relevante para a formação dos custos. Entretanto, o preço encontrado em cada posto varia por região, fornecedor, modalidade de compra e condições comerciais.
Como o preço do diesel afeta o frete?
O diesel é um dos componentes mais importantes do custo operacional de um caminhão, mas não é o único. O valor final do frete também precisa absorver:
Pedágios
Variam conforme a rota, a quantidade de praças e o número de eixos do veículo.
Manutenção
Inclui pneus, lubrificantes, peças, revisões e reparos do conjunto.
Mão de obra
Considera remuneração, encargos, diárias e despesas do motorista.
Seguros
As coberturas variam conforme carga, valor, rota e gerenciamento de risco.
Tempo parado
Esperas em docas, filas e restrições de recebimento diminuem a produtividade.
Retorno vazio
A falta de carga de retorno faz a viagem de volta também entrar no cálculo.
Por isso, não é correto aplicar a variação percentual do diesel diretamente sobre qualquer orçamento. Cada operação possui composição de custos, veículo, quantidade de eixos, distância e nível de ocupação diferentes.
Nova tabela do piso mínimo está em vigor
A Portaria SUROC nº 22, publicada pela ANTT em 29 de setembro, atualizou os coeficientes dos pisos mínimos do transporte rodoviário de cargas. Os novos valores entraram em vigor em 30 de setembro de 2026.
A revisão foi acionada pelo mecanismo previsto na Lei nº 13.703/2018. A legislação determina uma nova publicação quando o preço do diesel utilizado como referência oscila mais de 5%.
O reajuste não é igual para todos
A atualização do diesel não representa um aumento linear aplicado sobre todos os fretes. O piso depende da tabela, distância, tipo de carga, quantidade de eixos e forma de contratação do veículo.
A regulamentação utiliza quatro grupos principais de tabelas:
| Tabela | Aplicação geral |
|---|---|
| A | Operação de carga lotação com contratação da composição veicular completa. |
| B | Operação em que é contratada somente a unidade de tração. |
| C | Carga lotação com composição completa enquadrada como operação de alto desempenho. |
| D | Contratação da unidade de tração em operação de alto desempenho. |
Piso mínimo não é preço final do transporte
O piso mínimo representa o valor abaixo do qual determinadas operações não podem ser contratadas. Ele não substitui a cotação comercial completa e não funciona como um preço máximo.
O orçamento real pode ficar acima do piso devido a fatores como:
- pedágios e Vale-Pedágio Obrigatório;
- seguro e gerenciamento de risco;
- coleta ou entrega em regiões de difícil acesso;
- necessidade de ajudantes ou equipamentos especiais;
- tempo de carga e descarga;
- urgência ou exclusividade do veículo;
- restrições de circulação e agendamento;
- baixa disponibilidade de carga de retorno.
Transportadoras e embarcadores podem negociar livremente acima do piso, considerando o nível de serviço e os custos efetivos da operação.
Fiscalização eletrônica cruza CIOT, MDF-e e RNTRC
O ano de 2026 também marcou uma ampliação do controle eletrônico das operações rodoviárias. Desde 24 de maio, o CIOT passou a ser exigido nas operações de transporte rodoviário remunerado, independentemente da categoria do transportador contratado.
A ANTT utiliza as informações declaradas no MDF-e e as bases do RNTRC e do CIOT para fiscalizar o cumprimento do piso mínimo.
Nas operações de carga lotação sujeitas ao piso, o sistema pode impedir a geração do CIOT quando o valor informado estiver abaixo do mínimo aplicável. A vinculação ao MDF-e também permite acompanhar a operação desde o registro da contratação até sua execução.
Erros que podem causar irregularidades
- usar coeficientes de uma tabela anterior;
- selecionar o tipo errado de carga;
- informar quantidade incorreta de eixos carregados;
- calcular a distância de maneira inconsistente;
- registrar valor divergente do contrato;
- não vincular corretamente o CIOT ao MDF-e;
- utilizar transportador ou veículo irregular no RNTRC.
Reforma tributária aumenta a necessidade de planejamento
O ano de 2026 funciona como etapa de teste da CBS e do IBS, tributos criados pela reforma do consumo. A transição seguirá gradualmente nos próximos anos, até a implantação integral do novo modelo.
Entidades do transporte demonstram preocupação com o efeito da nova estrutura sobre os custos, os créditos tributários e a formação dos preços. Algumas projeções setoriais apontam possibilidade de aumento relevante, mas esses números devem ser tratados como estimativas, e não como reajustes confirmados para todas as empresas.
O impacto dependerá de fatores como regime tributário, perfil dos clientes, fornecedores, despesas que geram créditos e forma de contratação dos serviços.
O que muda para quem contrata transporte?
O embarcador precisa considerar que o frete está sendo pressionado por custos operacionais e por controles regulatórios mais rígidos. Contratar apenas pelo menor preço aumenta o risco de encontrar uma operação inviável ou irregular.
| Ação recomendada | Por que é importante? |
|---|---|
| Revisar contratos e tabelas | Evita utilizar preços ou coeficientes anteriores à atualização. |
| Informar corretamente a carga | Peso, dimensões, produto e embalagem alteram veículo, risco e preço. |
| Planejar com antecedência | Reduz a dependência de veículos urgentes e diminui viagens improdutivas. |
| Verificar o RNTRC | Ajuda a confirmar a regularidade do transportador contratado. |
| Comparar propostas completas | Permite identificar pedágios, seguros e despesas não incluídas. |
| Guardar documentos | Contrato, CIOT, MDF-e e comprovantes ajudam a demonstrar a operação. |
O que as transportadoras precisam acompanhar?
Para a transportadora, o maior risco é continuar formando preços com uma estrutura de custos desatualizada. O controle deve ser feito por veículo, rota e perfil de operação.
- consumo médio real de combustível;
- quilometragem carregada e vazia;
- custos de pneus e manutenção por quilômetro;
- horas paradas para carga e descarga;
- pedágios por quantidade de eixos;
- seguros e gerenciamento de risco;
- comissões e custos administrativos;
- tributos aplicáveis;
- margem necessária para manter e renovar a frota.
Uma média nacional por quilômetro pode servir como referência de mercado, mas não substitui o cálculo interno. Duas transportadoras podem apresentar custos diferentes na mesma rota devido a consumo, ocupação, frota e carga de retorno.
Fenatran 2026 deve concentrar as novidades do setor
Em meio às pressões operacionais, o mercado se prepara para a Fenatran 2026, programada para ocorrer entre 9 e 13 de novembro, no São Paulo Expo.
A feira reúne montadoras, fabricantes de implementos, empresas de tecnologia, intralogística, gestão de frotas e soluções para entregas. A programação também inclui conteúdos e experiências voltadas ao transporte rodoviário.
Entre os temas que devem ganhar espaço estão redução do consumo, eletrificação, combustíveis alternativos, telemetria, segurança, conectividade e automação de processos.
Informações da Fenatran 2026
- Data: 9 a 13 de novembro de 2026;
- Local: São Paulo Expo, em São Paulo;
- Perfil: transporte rodoviário de cargas, veículos, implementos, tecnologia e logística.
Tendências que devem continuar após outubro
Precificação mais detalhada
Operações diferentes exigirão cálculos específicos, em vez de uma tabela única por quilômetro.
Integração de documentos
CIOT, MDF-e, RNTRC e sistemas de gestão passarão a atuar de forma cada vez mais conectada.
Eficiência energética
Consumo, condução econômica e renovação da frota ganham importância quando o combustível permanece pressionado.
Maior controle fiscal
A transição tributária exigirá sistemas atualizados e acompanhamento contábil mais próximo.
Perguntas frequentes
Qual é o preço de referência do diesel para o piso mínimo?
A atualização publicada pela ANTT no fim de setembro adotou R$ 7,33 por litro para o diesel S10. Esse valor serve à metodologia do piso e não representa necessariamente o preço encontrado em todos os postos.
A alta do diesel aumenta todos os fretes no mesmo percentual?
Não. O impacto depende de distância, consumo, tipo de veículo, eixos, carga, retorno, pedágios e outros custos operacionais.
O CIOT é obrigatório para todas as transportadoras?
Desde 24 de maio de 2026, o CIOT passou a alcançar as operações de transporte rodoviário remunerado, independentemente de o contratado ser TAC, ETC ou CTC, observadas as regras aplicáveis.
O piso mínimo é o preço que deve aparecer na cotação?
Não necessariamente. Ele estabelece o mínimo regulatório nas operações abrangidas. O preço comercial pode ser superior devido aos demais custos e às condições do transporte.
A reforma tributária já aumentou o frete em 20%?
Não é correto afirmar isso para todo o mercado. O percentual divulgado é uma projeção setorial. O efeito real dependerá do regime, dos créditos tributários e da estrutura de cada empresa.
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